Informada da vitória de Agnelo, Weslian optou por recolher-se em casa
A ex-primeira-dama não quis comentar o resultado com os jornalistas, mas divulgou nota pública de agradecimento aos eleitores
A candidata derrotada ao Governo do Distrito Federal, Weslian Roriz, optou pelo silêncio na noite de ontem. Após a confirmação da vitória do adversário petista, Agnelo Queiroz, a mulher do ex-governador Joaquim Roriz recolheu-se em casa com familiares, militantes e aliados políticos. Na sala de casa, os dois fizeram discursos emocionados aos presentes. Mas a ex-primeira-dama descumpriu a tradição do pronunciamento à imprensa após a confirmação do resultado e optou por divulgar uma nota, por meio da assessoria de imprensa, agradecendo o apoio dos eleitores e cabos eleitorais e prometendo formar uma frente de oposição ao governador eleito. Na área externa da casa dos Roriz, no Park Way, o clima era de tristeza e indignação. A derrota de Weslian é prova do enfraquecimento de Joaquim Roriz, que comandou o DF por 14 anos.
Ao contrário do que aconteceu no primeiro turno, o movimento nas proximidades da residência foi fraco durante toda a tarde de ontem, sem ambulantes, visitantes ou carros de som. Durante os últimos dias de campanha, os rorizistas criticavam as pesquisas de opinião que buscavam calcular a intenção de voto dos eleitores do DF. Os apoiadores só começaram a chegar por volta das 17h30, quando a chuva havia passado. Com o resultado das eleições locais aos poucos ganhando forma, a esperança da militância do PSC foi murchando aos poucos. “Vamos levar de lavada”, diziam.
Entre os articuladores da campanha, o senador cassado Luiz Estevão foi um dos primeiros a chegar à residência. Em pouco tempo, cerca de 300 pessoas estavam no local para cumprimentar Weslian e o ex-governador. Ao microfone, a ex-primeira-dama lamentou a derrota e disse que, se fosse eleita, faria tudo pelo bem dos moradores do DF. “Meu coração já doeu muito. As pessoas precisavam de mim e do meu governo. Mas se Deus quis assim, que assim seja”, ressentiu, com a voz chorosa. Roriz disse estar sangrando com a campanha política deste ano. “Mas outras lutas virão e seremos mais fortes”, avaliou. Ele ainda defendeu que, apesar do pouco tempo para realizar as carreatas pelas cidades, sua mulher arrebatou um terço dos eleitores. “Não importa o resultado. Ela cumpriu o dever de lutar pela cidade e pelo povo”, finalizou.
Na carta entregue aos jornalistas, Weslian promete reunir aliados para fazer oposição ao governo petista: “Vamos acompanhar as ações que possam prejudicar as populações mais carentes”. Segundo o coordenador de Comunicação da campanha, Paulo Fona, ela atribuiu a derrota nas urnas às incertezas que rondaram a candidatura de Roriz e ao pouco tempo à frente da campanha. Após o discurso, com lágrimas nos olhos, os militantes deixaram o local. “É uma covardia. A população saiu perdendo”, disse o servente José Wilson de Sousa, 35 anos.
Defeito na urna
Ao contrário dos demais políticos, o casal Roriz saiu de casa por volta das 14h30 para votar. Weslian, que no primeiro turno atrapalhou-se para confirmar os votos na urna, não contou com problemas desta vez. Ela levou 14 segundos para digitar os números para governador e para presidente da República em uma escola na Candangolândia. Em seguida, ambos foram ao Colégio Salesiano, no Núcleo Bandeirante, local de votação de Joaquim Roriz. Ele chegou bem-humorado à seção, mas o momento da votação ficou marcado por irritação e um suposto problema na urna.
Roriz alegou não ter visualizado sua foto na tela após digitar o número da chapa. O mesário pediu que o ex-governador apertasse a tecla “Corrige” para repetir a votação. Segundo Roriz, o problema se repetiu. “Quero que esta urna seja impugnada. Não tenho certeza se meu voto foi computado.” Os mesários, no entanto, confirmaram o voto. O promotor eleitoral Daniel Faria informou que não houve impugnação da urna e o problema foi registrado na ata da seção.
CARTA DE DESPEDIDA
“A jornada foi breve, mas vitoriosa. Concorri por amor ao meu marido Joaquim, sim, e só tenho orgulho disso. Não podia ficar assistindo, omissa, ao que fizeram com ele, impedindo-o de concorrer e vencer as eleições. Concorri por amor ao DF porque não podia aceitar a vitória de quem só pensa em ardis, que se alia a traidores e a oportunistas de última hora. Cumpri uma missão e desde já aviso ao governador eleito que nosso grupo político — comandado por Joaquim Roriz — irá fazer uma implacável oposição. Cobrará, na Câmara Legislativa, na imprensa, na sociedade, as promessas de campanha. Iremos acompanhar as decisões governamentais, a transparência prometida, e as ações que possam prejudicar as populações mais humildes.”
Uma candidata folclórica
Aos 67 anos, Weslian Perpétuo Socorro Roriz deixou a rotina de dona de casa e as raras aparições nas colunas sociais para se tornar um dos personagens folclóricos das eleições de 2010. A ex-primeira-dama do DF nunca manifestou interesse em concorrer a qualquer cargo público. Mas, a nove dias do primeiro turno, seu marido, Joaquim Roriz, apresentou-a como sua substituta na corrida ao Buriti pelo PSC. Fez o anúncio na manhã seguinte ao Supremo Tribunal Federal encerrar, sem decisão, o julgamento de um recurso dele contra a Lei da Ficha Limpa. Para muitos, o ex-governador estava se valendo de uma candidata-laranja para retomar o poder na capital do país.
Novata na política, dona Weslian, como é conhecida em Brasília, mostrou falta de prática com os microfones e as câmeras. Em muitos momentos, ela própria admitiu o despreparo para lidar com temas ligados à gestão pública. Alegou que teria uma equipe de técnicos para tocar seu eventual governo, além do inseparável marido, com quem é casada há 50 anos e tem três filhas. Sua campanha ficou marcada por promessas consideradas impraticáveis e, principalmente, gafes. Algumas viraram hits na internet. Ao seu jeito, Weslian conseguiu atrair a atenção do Brasil para a então morna disputa política do DF.
O ápice da campanha veio no primeiro debate de que participou, promovido pela TV Globo em 29 de setembro. Ao ser perguntada sobre sua postura perante eventuais desvios éticos, cunhou uma frase que se tornou sucesso no YouTube. “Quero defender toda aquela corrupção”, afirmou a ex-primeira-dama do DF. Logo depois, tentou se corrigir. Mas não evitou o constrangimento dos demais participantes do programa. Ela ainda teve dificuldade em administrar seu tempo nas respostas, atrapalhou-se com as perguntas anotadas pelos assessores e chegou a confundir a mediadora. O desempenho até aniquilou eventuais ataques dos adversários, que a trataram com deferência, repetindo perguntas que ela não entendia, e não debocharam das suas respostas sem sentido.
Sucesso nas pistas
Não demorou para Weslian Roriz ganhar a rede mundial de computadores. No dia seguinte ao encontro na Globo, apareceu o vídeo editado no YouTube no estilo melhores (piores) momentos, visto por quase meio milhão de pessoas em menos de um mês. Já a frase “Quero defender toda aquela corrupção” virou refrão de música dançante, tocando até em casas noturnas da capital. Mas nada disso parece ter abalado Weslian. Não há notícia de que ela tenha se arrependido de ir ao debate. A candidata até declarou que estava lá espontaneamente.
Sempre bem maquiada, penteada e vestida — geralmente em tailleurs com botões lembrando o estilo dos anos 1960 —, Weslian seguiu em campanha explorando a imagem da típica primeira-dama que distribuía cueiros e mijões para grávidas na periferia de Brasília com dinheiro de uma ONG. Católica praticante, evocou os valores morais da sua religião. Mas logo na primeira carreta, em 2 de outubro, Weslian cometeu outra das suas gafes. “Com a receptividade que tive hoje, eu vou para o primeiro turno, se Deus quiser”, afirmou. Na verdade, ela queria dizer ter condições de disputar a segunda etapa do pleito.
Apesar da campanha relâmpago e de não se encontrar uma fotografia de Weslian nas ruas do Distrito Federal, pois sua campanha usava o mesmo material utilizado pelo marido, ela conquistou 440.128 votos em 3 de outubro (31,5% dos votos válidos). A maioria, certamente, dos fiéis seguidores de Joaquim Roriz. No entanto, como a quantidade seria insuficiente para a eleição em segundo turno, os marqueteiros dos Roriz incentivaram Weslian a prometer o que quisesse. Mas algumas das suas propostas eram tão questionáveis, do ponto de vista jurídico, que poderiam virar alvo da Justiça Eleitoral, caso ela vencesse.
Weslian prometeu, por exemplo, o perdão de todas as multas de trânsito emitidas no DF. “Assim que assumir o governo, dona Weslian vai anistiar todas as multas. Quem tem multa até 30 de setembro não vai mais precisar pagar”, anunciou o locutor no horário eleitoral dela. A proposta ficou conhecida como “bolsa-pardal”, em referência às câmeras eletrônicas.
Acuada pela ostensiva falta de preparo para lidar com a mídia, Weslian, que tem apenas o ensino médio, passou a evitar o contato com o público. A mulher de Roriz cancelou a presença em quase todos os debates nas TVs e rádios. Recusou-se até a falar com os jornalistas e a fazer discursos durante carreatas. O marido dela chegou a fazer as vezes de guarda-costas, impedindo a aproximação derepórteres, cinegrafistas e fotógrafos. “Falem comigo, eu falo por ela”, afirmou Joaquim, mais de uma vez. E ele passou a falar por ela até nos programas do horário eleitoral gratuito.
No segundo turno, a primeira aparição de Weslian em um veículo de comunicação ocorreu em 14 de outubro. Em uma entrevista ao vivo a uma emissora de TV, a ela admitiu desconhecer o plano de governo do PSC para a gestão da capital. “Eu não participei do plano porque minha decisão para ser candidata foi imediata”, justificou, da forma mais sincera possível.
Treinamento
Para tentar minimizar os efeitos de sua inexperiência, Weslian passou por várias sessões de media training, um curso para aprender a responder perguntas de jornalistas e também do adversário no segundo turno. Mas ela continuou sumida dos debates. Reapareceu apenas no último deles, organizado pela TV Globo, quinta-feira última. Apesar de um pouco mais segura, voltou com os erros e a bagunça com as colas feitas pelos assessores. Logo na primeira resposta, Weslian chegou a dizer: “A pessoa não vai ter só desemprego, sua falta de emprego, vai ter sua capacitação”.
No segundo bloco, ao perguntar ao adversário sobre suas propostas na área de habitação, Weslian começou a questão da seguinte forma: “Quero perguntar sobre habitação ao nosso candidato”; depois chamou-o de governador, até completar a pergunta. Na tréplica a Agnelo, sobre uma suposta denúncia contra o candidato petista, “A coisa melhor que tem é a gente não ter nada o que acusar... a gente, é lógico”. Ao fim, bem no estilo Weslian, despediu-se dos espectadores: “Estou muito feliz. A cidade está toda azul. Azul como está aqui (o estúdio da TV).” O azul é a cor das campanhas de Joaquim Roriz e de quase todos os tailleurs da mulher dele.
FRASES MARCANTES
“Quero defender toda aquela corrupção.”
Em debate na TV, ao falar sobre os recentes escândalos no Governo do DF.
“Eu não tenho informação porque não fui eu que fiz meu plano de governo. Como já estava pronto, eu vou aproveitar.”
Em entrevista na TV, ao ser perguntada sobre o plano de governo.
Fonte: www.correiobraziliense.com.br
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